O que não me disseram sobre trabalhar (e estudar)

Lá por volta dos meus seis anos, quis dinheiro para comprar doces e minha avó não tinha. Fiquei chateada, rabisquei numa folha do meu caderno de desenho e ofereci aos meus vizinhos, por um valor simbólico de cinco centavos, um autêntico Andreza Reis. Apesar de desenhar MUITO mal, e com a caneta bic ainda por cima, foi um sucesso entre a criançada. Meus vizinhos da parte mais baixa da rua me chamavam no portão para comprar meus desenhos para pintar. Vi ali a possibilidade de ficar rica.

Entrei em contato com os fornecedores (minha mãe), ela comprou uma resma de chamex, deixou usar meu material de escola e me incentivou bastante. Criei novos produtos. Cartões com frases bonitinhas recortados por alguém que não conseguia segurar uma tesoura direito. Algumas primas que moravam em outra rua compraram fiado. E lembrando bem, elas não pagaram até hoje. As vendas deram uma queda. Decidi lutar pelo negócio. Coloquei uma banca em frente ao meu portão para expor meus desenhos, fiz contato com um vizinho que desenhava realmente bem e ele concordou em emprestar seus desenhos para que eu pudesse xerocar e comercializá-los. E é claro que tudo isso foi um fracasso.

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O que era ‘Jardim Secreto’ perto de um desenho de casinha feito com caneta bic?

Aos nove, entrei no ramo das bijuterias. Um belo dia decidi pegar todos os brincos e cordões quebrados da minha casa e fazer novos para vender. Queria comprar uns doces a mais na hora do intervalo e talvez umas canetas coloridas com glitter da venda da esquina. Os brincos reciclados ficaram horríveis, mas minha mãe não me deixou desistir. Investiu do seu próprio capital ao comprar miçangas, fios de nylon elástico e alguns outros instrumentos. Fiquei animada, fazia pulseirinhas e cordões o dia todo. E as pessoas compravam e encomendavam bastante. Minha mãe ficou animada e me comprou revistas com os passos. Logo decidi que era hora de colocar meu negócio pro mundo. Ou pra rua.

Acordei bem cedo, tomei meu café e coloquei um banco quebrado, com uma madeira em cima, disfarçados com um pano de mesa. Fiz uma plaquinha e deixei todos as minhas joias a disposição. Não vendi uma pulseira nesta parte da manhã. E a noite, quando já tinha feito minhas tarefas e lavado a louça, coloquei minha bancadinha de novo e fiquei surpresa: minhas amigas começaram a vender também.

E é claro que isso foi uma guerra na rua.

No meu aniversário de quinze anos, meu padrinho me deu cinquenta reais. Guardei o dinheiro por um bom tempo. Até ir ao mercadão de Madureira e ver que você pode ter uma loja com dois funcionários por trinta reais. E comprei uma cartela de brincos por dois reais, alguns colares e brincos avulsos por um, dois ou até três reais. E comecei a vender na escola pelo triplo do preço. Quádruplo até.

Tripliquei o dinheiro do presente e investi em maquiagem. Vendi muitas. Kits de sombras, batons, bases e blushes. Tinha muita clientela e conseguia fazer um bom preço.

Comecei a comprar roupas e pagar minhas saídas com o meu dinheiro. Porque sempre, desde que me entendo por gente, quis trabalhar. Mas como não era legalmente possível, sempre fui dando meu jeito. Meus pais pagaram escola e cursos, meu assunto favorito era qual a profissão que eu seguiria e como eu não via a hora de trabalhar. E é claro, todo mundo me apoiava e dava corda.

O que eles esqueceram foi de me contar que não seria tão fácil assim. Trabalhar, eu digo.

Não me disseram que eu viveria cansada.

Se o dia tem mesmo vinte e quatro horas, dessas eu não durmo mais que cinco. Incluindo na conta os cochilos do ônibus. O deslocamento casa-trabalho-faculdade-casa é bem grande e com isso, fico cansada antes mesmo de começar a trabalhar. Quem me disse que eu me acostumaria acordar cedo e viveria em paz com isso não poderia estar mais errado. Posso acordar as 6h todo santo dia útil, mas no sábado antes de meio-dia não acordo. E para minha surpresa, acordo ainda mais cansada e triste porque perdi boa parte da minha folga dormindo.

A vontade de fazer as coisas durante a semana some também. Mesmo nos dias que não tenho aula e chego mais cedo em casa, me jogo no sofá e não consigo levantar nem a pau. E é claro que eu sofro por isso. Porque fica a sensação de ‘ei, deveria fazer alguma coisa’. E mais uma vez me culpo por isso.

Transporte público virou a minha segunda cama. Se antes, eu via uma velhinha, oferecia meu lugar mesmo se não fosse preferencial. Hoje, não me vejo fazendo isso nem se me pagassem a passagem. Meu cansaço me deixou menos humana.

Não me disseram que o metrô se tornaria meu maior pesadelo.

Se antes, ficava feliz em precisar pegar o metrô por qualquer motivo, hoje lembrar do metrô me dá ansiedade. São cinco lances de escadas para subir a plataforma, com pessoas que andam lentamente, fazendo o meu joelho me xingar. E aí, quando pago a passagem, olho mais um lance de escadas que tenho descer, quase sempre correndo. Pois o metrô está a sair.

O metrô chega na plataforma já cheio. E ainda sim rola uma correria para escolher o lugar onde você será menos amassado. O gancho faz meus ombros e mãos doerem o tempo todo da viagem. Mas cair dói muito mais, acredito. Então seguramos. E o metrô lota. E bate um desespero, principalmente quando faz calor lá fora. Parece que nunca mais vou respirar. E a ansiedade chega. Fica realmente mais difícil de respirar depois disso. Alguns caras aproveitam para dar aquela sarrada básica. Outras pessoas aproveitam para aliviar suas necessidades diárias de tretar com alguém. E eu tento só sobreviver até chegar no trabalho.

Não me disseram que meu corpo é um organismo vivo. E que ele dói.

A dor de cabeça virou minha companheira, meu nariz não suporta tanta poeira como antigamente e descobri que a função dos joelhos, cotovelos, ombros e pulsos é doer. O estômago ficou melodramático e não suporta mais tanta aventura gastronômica assim.

Não tenho tanta resistência (e nem muita vontade) para as atividades de lazer em meu tempo livre, e com isso a minha cama tem sido minha principal companhia do final de semana.

A farmácia se tornou minha loja favorita. Faço compras parceladas lá e almejo remédios. Sirvo a religião AMIL 300, sou devota de Nossa Senhora da Nimesulida e em breve, pagarei meu dízimo a psicóloga.

E ah, a autoestima se tornou praticamente inexistente. Não há tempo para se alimentar bem ou fazer aquela hidratação no resto que sobrou de cabelo, porque ele cai por conta do estresse. O corpo, bem, ele engorda e muito. E as olheiras tornaram-se parte do meu rosto e não há sono que as tire daqui.

Não me disseram que o tempo é valioso.

E que a máquina de ponto é seu principal contador. Esqueceram de me contar também que os números registrados no papel valem mais que o valor do meu trabalho. E a sensação que o mundo acontece lá fora, enquanto estou aqui esperando a hora chegar?

Tento aproveitar a companhia dos meus familiares o máximo que posso. E o máximo são duas horinhas, nos dias que não tenho aula. Fico sabendo dos acontecimentos da minha família pelas redes sociais. Escrevo para minha mãe mais do que falo. Não tenho paciência para ouvir as coisas que a aconteceram na escola da minha irmã, quando ela chega entusiasmada para contar, porque tudo o que eu quero é ir pra cama logo.

E por último, não me contaram que há uma fase da vida em que tudo fica à mercê do diploma. Estou num limbo, esperando encontrar um caminho da luz. Onde haverá tempo para ser feliz e fazer o que eu gosto de verdade. Sem me culpar. Sem me autocriticar o tempo inteiro. Um lugar para viver e não só existir.

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3 comentários sobre “O que não me disseram sobre trabalhar (e estudar)

  1. Tenho orgulho de você! Cada texto é um tiro certeiro.
    Você consegue expressar exatamente o que sinto. Ouso dizer, que você expressa exatamente o que cada um – da nossa geração – sente.
    A cobrança por um emprego dos sonhos, TCC de nota dez, de aproveitar a vida na folga, de viver ao invés de somente existir, é absurda.
    Esquecem que a vida é uma só e o gozo deve ser diário.
    Desejo muita luz na sua caminhada. Tenha certeza que reconhecimento já tem! Que você continue escrevendo e expressando aquele pensamento mais profundo e íntimo, que achamos ser um absurdo: “Eu trabalho e estudo. Tô reclamando de quê?” DE TUDO. Não é normal se sentir assim e viver assim!
    Mais uma vez, orgulho define. Abraça o mundo, guria!

    Curtido por 1 pessoa

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