Avós

Por algum motivo, razão e circunstância me dou muito bem com velhinhos. Todos eles. Tenho paciência que as vezes não tenho para crianças. Prefiro sentar e escutar suas histórias do que conversar sobre a novela com alguém da minha idade. Não é uma coisa de agora, de ontem, lembro que sempre fui assim e por este motivo tenho vários “avós” espalhados pelo bairro. Tem uma que eu até peço bença e chamo de avó mesmo.

No meu trabalho, tem várias ‘vovós’. Uma delas, conversa comigo pelas manhãs, me conta da vida, dos filhos dos netos, algumas histórias de férias. Há pouco veio me conta sobre uma crônica que leu, veio rindo muito e relembrou sua infância na Bahia. Fiquei parada olhando para ela pensando o quanto eu gosto disso. O quanto eu gosto de conversar. E como eu sinto falta disso nas minhas avós.

Minha avós são relativamente novas. A mais velha tem 63 e a outra tem 58. Geralmente esta é a idade dos pais dos meus amigos. É com a de 63 que eu tenho mais convívio, que eu passo grande parte do meu sábado conversando e assisto Silvio Santos no domingo. Ambas são viúvas. A de 63 namora um moço, 40, que hoje carinhosamente chamo de avôdastro. A outra, já teve seus namoros mas seu autodenomina piriguete. E isso me incomoda. Não pelo fato dela ser livre e sair com quem ela quiser. Direito dela. Ainda mais de ter passado a vida toda sendo dona de casa e mãe. Esse é o respiro de ufa dela, o seu escape. O incômodo vem porque não tenho uma avó e sim uma amiga. Uma colega que me conta com quem tá saindo, o que tá fazendo, o que deixa de fazer, me carrega pra show e pula a noite toda. Mais que eu, é claro.

Não é egoísmo da minha parte, alto lá. Eu só sinto falta de ter essa avó que eu já tive. Era na casa dela que eu passava os finais de semana e férias com meus primos. Ajudava na cozinha só para ouvir suas histórias, comprava banana porque sabia que eu ia pra lá e a tarde me ensinava a pintar panos de prato sem sucesso. E eu adorava pentear seus cabelos, bem pretinhos na época, por horas.

Meus avôs se foram cedo. Avô José, ou Zecão, 57, se foi em 2003. Havia acabado de completar 7 anos. E foi a minha primeira grande perda. Saiu para jogar bola com meu pai e não voltou. Infartou no campo. Com isso, minha ansiedade desencadeou. Tinha medo de sair e não voltar mais. Não gostava mais das partidas de final de semana que meu pai ia. Qualquer coisa que passava na tv, achava que ia acontecer comigo ou com meus pais. Não conseguia ficar sozinha dentro de casa. E isso durou por muito tempo. Muito mesmo. Não tenho muitas lembranças dele, infelizmente. Mas as que eu ainda tenho, são boas. Lembro que me carregava no colo até o seu bar, às 7h, porque meus pais trabalhavam e eu ficava com eles. E que me deixava comer as balas da vitrine.

E o meu vôzinho Antônio, ou Seu Toinho, 64, se foi em 2013. Desconfiava que tinha cancer. Mas, cabra da peste, não fez os exames necessários. Numa madrugada acordei com a notícia que tinha infartado. Foi um dia tão estranho. Não consigo ter uma outra definição. Não externalizei. Quis superar logo. Deixei a vida seguir. E eu comecei a ter problemas com a ansiedade. Mal conseguia conversar com as pessoas, minha língua enrolava e as palavras travavam. Até hoje não sei porquê. Meu avô sempre foi turrão, mas se derretia com os netos. Seus abraços e pingos de leite que trazia do bar quando ia fazer o jogo do bicho. Ou ainda quando dizia que eu era a netinha favorita dele e me abraçava forte logo depois. E caramba, como assistir Silvio Santos era divertido com ele. Como!

E por algum motivo, razão ou circunstância hoje eu sinto saudade. De cada um deles. De ter mais tempo para passar com a avó Sueli, de ter menos amizade e mais vozice com a avó Maria, de ter mais lembranças do meu avô José e de ser chamada netinha pelo avô Antônio.

Não teve frase engraçadinha. Ou referência. Mas de longe, por mais simples que parece as junções de palavras, foi o mais difícil de escrever.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s