O imprinting pela biblioteconomia

Entrei na faculdade completamente perdida. Queria só estar lá.

Sonhava com comunicação social, é o que certamente já combinava comigo. Mas não tinha nota para o Sisu. Mesmo ficando em primeiro lugar no Prouni, não pude cursar porque minha bolsa no ensino médio foi de 80%. Não tinha dinheiro e não tive coragem de me comprometer por mais de 10 anos usando o fies.

Biblioteconomia vamos nós. Não sabia muita coisa da área, só sabia que logo trocaria de curso.

Os dois primeiros períodos foram os mais difíceis pra mim. Eu não aceitava aquele curso, as aulas teóricas eram super chatas, trezentos textos por semana. Nada me animava. Fazia um estágio que colaborava para a minha insatisfação. Tédio o tempo inteiro. Tédio. Tédio.

Logo no primeiro período, fiz um trabalho em grupo e tive um problema muito sério com o pessoal. Criticava a profissão, a estagnação do pensamento, a difícil aceitação da tecnologia e etc. Lembro que falei para uma menina do grupo “mas pra que o cara vai buscar por isso na biblioteca, se ele encontra isso em 15 segundos no google?”. Ela ficou vermelha e fez um discurso de 20 minutos.

Até que eu saí do estágio, que sugava minha energia, minhas ideias e tudo mais. Saí não. Fui mandada embora. E aquilo foi a melhor coisa que me aconteceu, pois logo entrei em outro estágio. Numa biblioteca escolar. Comecei realmente a praticar, entender, visualizar tudo aquilo que ouvi os professores falando cerca de 4 horas por dia. Tinha disposição, vontade de aprender, meu CR subiu, minha vontade de ir às aulas. Puxei mais disciplinas, comecei a participar dos grupos de discussão, até a minha leitura de lazer melhorou. Li 20 títulos em menos de 6 meses.

Em 2013, fechava os olhos e me via em 5 anos trabalhando em uma super agência de publicidade em São Paulo. Nunquinha que me veria na frente de alguma biblioteca.

Semana passada, durante uma aula de comunicação (dentro do curso de biblioteconomia, sim!) a professora chamou atenção da turma para um possível problema: uma universidade na Califórnia, com mais de um milhão de livros, começou a utilizar robôs para pegar livros no acervo. Ela disse “se eu fosse vocês, começaria a me preocupar com a profissão. Se já tem um robô fazendo o trabalho de vocês, onde vocês estarão daqui há alguns anos?”

Passou um filmezinho na minha cabeça. Todas as matérias que já aprendi até ali. Respirei fundo. Meu coração começou a bater mais forte. Foi naquele momento em que tive um imprinting. É isso. É isso que eu quero para a minha vida. Eu realmente gosto disso. Obrigada, Otlet! Obrigada, Dewey! Obrigada, Decourt!

Levantei a mão, pedi licença e respondi:

– Se você resumir toda a minha profissão a colocar livros na estante, realmente estaria muito preocupada. Mas como sei que, curso por 4 anos e meio bibliotecomia, te digo, sonho seria ter isso no meu trabalho. Assim, o tempo que eu levo pegando livro na estante, teria terminado a pilha de análise, catalogação, tratamento, classificação, indexação  da informação que eu tenho a fazer para o robô pegar exatamente o livro que usuário precisa.

Fiquei vermelha. E discursei por mais 20 minutos.

 

 

 

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3 comentários sobre “O imprinting pela biblioteconomia

  1. Uma vez entrei em um debate acirradíssimo. Estavam dizendo que bibliotecários são tacanhos, não querem fazer nada diferente, não querem aprender com a robotização. Que a gente faz é gestão da informação, precisamos abrir nossos espaços nas empresas, e blablablá.
    Concordo. Ter mais mercado é sempre bom, especialmente com “robôs fazendo parte de nosso trabalho”.

    Mas… hello, eu moro no Brasil. E não é por nada não, mas saindo do eixo RJ-SP-Sul, o que mais tem por aqui é biblioteca que não tem nem computador para bibliotecário trabalhar, nem fazer uma catalogaçãozinha em MARC. Que tem interior que o povo não sabe mexer num mouse, que o governo não repassa dinheiro para que a biblioteca tenha um bebedouro. Se você não quiser ficar no Sudeste-Sul, ou se você for para qualquer lugar que não tenha ouvido falar em “Gestão da informação”, sua realidade não será a bonita debatida nas escolas. Não que o debate não tenha que ocorrer; mas acho que o povo esquece que não é todo mundo naquela sala que quer trabalhar na multinacional.

    Continue firme, independente do caminho na área. 🙂

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